A discussão sobre a identidade do Brasil no contexto continental voltou aos holofotes após o show do Bad Bunny no Super Bowl. O artista porto-riquenho, referência das músicas de origem espanhola nas Américas, levou milhares a questionarem: afinal, o Brasil faz parte desse grupo chamado “latino”? Nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp e até em salas de universidades, esse debate gera emoções, críticas e até certo incômodo. Nós, do Bom dia, América!, temos ouvido, lido e refletido sobre essas questões há anos e, com dados recentes, acreditamos ser hora de trazer uma análise crítica e atualizada, essencial para quem busca entender como o Brasil se vê, como é visto, e até o que perde por se colocar à parte dessa identidade regional.
Neste artigo, vamos responder se o Brasil é ou não “latino” com base em pesquisas, história, política e cultura. Além disso, vamos avaliar as consequências e nuances dessa autoimagem tanto para a sociedade quanto para a política exterior, sempre de maneira acessível, envolvente e fundamentada.
Um comentário, um show e um debate: o estopim nas redes
Tudo começou com uma fala aparentemente simples: ao apresentar Bad Bunny no palco do Super Bowl, organizadores ressaltaram sua presença “latina”. Em questão de minutos, brasileiros reagiram. No X (antigo Twitter), no Instagram e em outras redes, surgiu o questionamento: O Brasil está incluído no que o mundo entende por “latino”?
O que vimos após esse episódio foi uma defesa apaixonada por parte de muitos brasileiros, que se sentem parte sim da cultura latino-americana. Mas, para surpresa de alguns, nem todos os próprios brasileiros compartilham essa sensação de pertencimento. O público parece dividido; há quem abrace com orgulho a raiz regional e há quem rejeite, dizendo que o Brasil é “um caso à parte” na América do Sul.
- Nas redes: discussões intensas sobre música, idioma e identidade;
- Sensação de exclusão ou orgulho de separação;
- Interesse renovado em pesquisas e reflexões sobre o tema.
O que está por trás desse sentimento? Dados inéditos ajudam a entender.
O brasileiro e suas identidades: o que dizem as pesquisas?
Segundo pesquisa nacional coordenada pelo Cebrap em 2023, apenas 4% dos brasileiros se reconhecem como latino-americanos. Um número surpreendente, ainda mais se pensado no contexto geográfico e cultural do país. O levantamento mostra outros dados marcantes:
- 83% dos entrevistados afirmaram: “Eu sou brasileiro.”
- 10% disseram: “Sou um cidadão do mundo.”
- O dado sobre ser “latino-americano” ficou restrito a uma parcela pequena, de 4%.
“Ser brasileiro vem antes de qualquer outra coisa.”
Esses dados têm se repetido ao longo do tempo: levantamentos similares foram observados em 2014 e 2018, mostrando uma constância no olhar do brasileiro sobre si mesmo. Para nós do Bom dia, América!, isso escancara uma autossuficiência na brasilidade, uma singularidade e até certo orgulho de não se sentir parte de um grupo “maior”.
Segundo Feliciano de Sá Guimarães, pesquisador da USP e referência em política externa brasileira, essa escolha não é por acaso. Em sua análise (apresentada em Brasil entre o ocidente e o sul global: ambiguidade estratégica e grandes potências), ele afirma:
“Existe uma autossuficiência na identidade nacional brasileira, acompanhada de ausência de conexão profunda com o resto do subcontinente.”
Esse distanciamento, seja consciente ou inconsciente, diferencia o Brasil de seus vizinhos, como discutimos em nossa análise sobre opinião pública no continente em relação ao Brasil.
De onde vem o termo “América Latina”? História de um conceito
Para entendermos o sentimento de pertença (ou não), é preciso voltar ao século 19. Afinal, de onde vem “América Latina”? Há duas versões clássicas sobre sua criação, ambas em 1856:
- Francisco Bilbao, intelectual chileno, teria mencionado o termo em um discurso em Paris, defendendo uma unidade dos povos “latinos” do continente.
- José María Torres Caicedo, da Colômbia, usou em poema e depois em ensaio, vinculando a expressão à resistência contra o avanço e a intervenção dos Estados Unidos nas nações do sul.
No entanto, foi em 1861 que o conceito se fortaleceu, ao ser apropriado por Napoleão 3º, imperador francês. Ele tentou expandir a influência imperial da França sobre os países hispano-americanos, impulsionando a ideia de “panlatino”. Essa estratégia, no entanto, foi rejeitada após a invasão do México e a resistência de Benito Juárez (cf. artigo sobre cultura e identidade nas Américas).
A noção de uma identidade compartilhada ganhou força apenas no século 20. Na prática, foi a partir da década de 1960 que movimentos antiautoritários, a oposição à influência dos Estados Unidos e a integração intelectual nos campi universitários consolidaram a ideia de unidade no subcontinente.
Latino-americano: identidade real ou projeto de elites?
