Fernando Cerimedo: redes digitais, fake news e crimes nas Américas

Há personagens que ajudam a explicar uma época. Fernando Cerimedo, consultor argentino ligado a campanhas conservadoras e nacionalistas no continente, tornou-se um desses casos. Seu nome cruza política, marketing digital, acusações criminais e uma pergunta que já não pode ser evitada: até onde vai a indústria da manipulação online nas Américas?

No Bom dia América, nós acompanhamos esse tema porque ele toca o centro do debate público regional. Não se trata só de uma biografia controversa. Trata-se do uso de tecnologia, dinheiro, influência e desinformação em campanhas políticas de direita na América Latina e em redes associadas ao poder nos Estados Unidos.

Quando um operador digital aparece ligado a eleições na Argentina, Bolívia, Honduras, Chile, Brasil e ainda surge em registros societários nos EUA, o caso deixa de ser local. Passa a ser hemisférico. E fica mais grave quando esse mesmo nome entra no noticiário policial por suspeita de tentativa de feminicídio e por vínculos com estruturas de bots em escala industrial.

Não é só política. É método.

Quem é Fernando Cerimedo?

Fernando Cerimedo é argentino e ganhou espaço como consultor de comunicação e operação digital em campanhas eleitorais de perfil direitista no continente. Entre os nomes associados a seus serviços estão Javier Milei, na Argentina, Rodrigo Paz, na Bolívia, e Nasry Asfura, em Honduras. Também há relatos de atuação da sua empresa em favor da campanha contra a nova Constituição chilena em 2022, consulta que terminou com a rejeição do texto.

O ponto central do caso é que Cerimedo não aparece apenas como marqueteiro, mas como operador de ecossistemas digitais voltados à influência política.

Esse tipo de atuação não é novo. O que muda é a escala. Hoje, perfis automatizados, disparos em massa, redes de aparelhos e conteúdo fabricado podem deslocar o debate público em poucas horas. Nós já tratamos da dimensão técnica desse problema ao discutir tecnologias emergentes nas Américas e seus efeitos sobre as relações internacionais. O caso Cerimedo dá rosto humano e político a essa engrenagem.

Da Bolívia à prisão preventiva

Desde 2025, Cerimedo vive na Bolívia, país onde trabalhou na campanha de Rodrigo Paz. Foi ali que a história tomou um rumo ainda mais sombrio. Ele foi preso acusado de tentar encomendar o assassinato da ex-namorada, a advogada boliviana Nadia Beller.

Segundo a denúncia, Beller sobreviveu ao atentado e passou a relatar às autoridades algo que amplia muito o caso. Ela afirmou que Cerimedo operava “fazendas de bots”, estruturas físicas com milhares de celulares destinados a criar tráfego artificial, replicar mensagens, impulsionar hashtags e espalhar desinformação na Bolívia e em outros países.

A acusação deixa de ser apenas pessoal quando conecta violência privada e manipulação pública dentro da mesma rede operacional.

A polícia boliviana encontrou nos arredores de La Paz uma dessas estruturas, com cerca de 43 mil celulares. O dado, por si só, choca. Não estamos falando de um escritório com computadores comuns. Estamos falando de uma arquitetura montada para simular apoio popular, fabricar tendências e interferir no ambiente informacional.

Cerimedo está em prisão preventiva por ao menos 180 dias. As acusações incluem tentativa de feminicídio e enriquecimento ilícito, este último relacionado ao funcionamento dessas fazendas de bots. A empresa Numen, ligada a ele, seria dona do imóvel onde os aparelhos estavam instalados.

Sala com estantes cheias de celulares ligados em operação digital O que são fazendas de bots?

Nós precisamos ser claros aqui. Fazendas de bots não são apenas softwares rodando em segundo plano. Em muitos casos, são espaços físicos com aparelhos reais, chips, conexões múltiplas e sistemas para contornar barreiras das plataformas.

Em geral, essas estruturas podem servir para:

  • Impulsionar artificialmente perfis e temas;
  • Simular engajamento popular em candidaturas;
  • Atacar adversários com enxurradas coordenadas;
  • Disseminar boatos em alta velocidade;
  • Testar narrativas até descobrir quais geram mais reação.

Uma fazenda de bots transforma opinião fabricada em aparência de consenso.

Esse modelo interessa muito a setores que apostam em comunicação agressiva, polarização e guerra cultural. Em parte, por isso, ele aparece com frequência em campanhas da nova direita latino-americana, embora o problema não se limite a um só campo ideológico.

No entanto, o caso Cerimedo chama atenção porque várias peças apontam para uma rede transnacional com fins eleitorais, empresariais e geopolíticos. Nós vemos nisso um padrão das Américas atuais: a fronteira entre comunicação política, operação psicológica e negócio digital está cada vez mais frágil.

Numen, campanhas e influência regional

A Numen, associada a Cerimedo, aparece como peça de ligação entre diversas campanhas. Além da atuação mencionada na Bolívia, Argentina e Honduras, documentos e reportagens apontam serviço prestado à campanha contrária à nova Constituição do Chile em 2022, rejeitada nas urnas.

Também no Brasil, Cerimedo ganhou projeção em 2023 ao ser chamado pelos Bolsonaro para tentar sustentar a narrativa de fraude nas urnas eletrônicas na eleição de 2022. Isso nunca foi comprovado. Ainda assim, sua presença naquele debate deu visibilidade continental ao seu nome.

No Brasil, Cerimedo se tornou conhecido por tentar dar verniz técnico a uma acusação eleitoral sem prova.

Esse ponto é delicado. Em política, a simples repetição de uma suspeita pode produzir dano mesmo sem evidência. A mentira organizada não precisa vencer no tribunal para vencer no algoritmo. É por isso que temas assim conversam com discussões mais amplas sobre segurança digital e proteção de sistemas sensíveis. A democracia também depende disso.

Os registros nos Estados Unidos

Outra camada do caso está nos Estados Unidos. Em maio de 2023, foi criada em North Miami a Numen Advisors LLC. O registro oficial do Estado da Flórida mostra a incorporação em 24 de maio de 2023, sob o número L23000254200, com posterior condição de inativa por falta de documentação anual. O mesmo material societário ajuda a rastrear vínculos formais, endereço e composição empresarial, conforme os registros oficiais da Flórida sobre a Numen Advisors LLC.

Entre os nomes ligados à empresa aparece Aldo Arteaga como sócio. O dado não é detalhe burocrático. Empresas montadas nos EUA, mesmo quando ficam inativas, podem funcionar como ponte de contratação, lobby, circulação de recursos e oferta de serviços digitais para campanhas no exterior.

O registro societário nos EUA sugere que a operação buscava alcance regional com base jurídica e financeira internacional.

No Bom dia América, nós insistimos num ponto: seguir o dinheiro e os contratos é tão revelador quanto seguir as mensagens públicas. Quem paga, quem assina e quem representa quem. A política digital do continente passa por essa trilha documental.

As conexões com o entorno de Trump

Segundo investigação do CubaDebate, contratos e documentos oficiais apontam a atuação da Numen na campanha de Javier Milei em cooperação com o lobista Damián Merlo. Essa documentação também indica interação formal com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos sob a lei de registro de agentes estrangeiros, a FARA.

Merlo teria aproximado Cerimedo de nomes de peso na política americana, entre eles Mauricio Claver-Carone, Viviana Bovo, Mario Díaz-Balart, María Elvira Salazar e contatos com a Subcomissão de Assuntos do Hemisfério Ocidental.

O documento mais citado nesse circuito é a Declaração Suplementar 6898. Ali aparecem encontros de Cerimedo e Merlo com figuras associadas ao trumpismo e à política externa conservadora dos EUA, como Gavin Wax, Christopher Landau, Ana Quintana, Viviana Bovo e Joseph Humire.

Essas reuniões mostram que operadores digitais latino-americanos podem buscar legitimação e portas abertas no núcleo político de Washington.

Há um detalhe temporal que chama atenção. Esses encontros ocorreram pouco depois de uma intervenção militar dos EUA na Venezuela, o que amplia o peso geopolítico da rede de contatos. Já não falamos apenas de comunicação eleitoral. Falamos de atores que orbitam segurança, diplomacia informal e narrativas hemisféricas.

Para quem acompanha as Américas com atenção, isso importa muito. Redes de influência não respeitam fronteiras eleitorais. O mesmo operador que vende serviço de campanha pode circular entre gabinetes, empresários, think tanks e estruturas de lobby.

Reunião com mapas e telas sobre estratégia política digital Brad Parscale e a nova etapa da propaganda automatizada

Brad Parscale não participou dessas reuniões citadas, mas aparece conectado aos projetos digitais de Cerimedo a partir de 2025. Ex-estrategista digital de Donald Trump desde 2016, Parscale manteve acesso direto a nomes como Marco Rubio e María Elvira Salazar.

Essa aproximação sugere uma passagem de bastão entre operadores de mundos parecidos: campanha, dados, influência segmentada e pressão por resultados de alto impacto. Em nossa leitura, não se trata de mera coincidência profissional. Trata-se da formação de um mercado hemisférico de persuasão tecnológica.

O próprio percurso recente de Parscale reforça essa tese. Em setembro de 2025, por meio da empresa Clock Tower X, ele foi contratado pelo governo de Israel por US$ 50 milhões para operar uma campanha de comunicação com inteligência artificial, com envio massivo de mensagens de texto para tentar reabilitar a imagem de Israel diante do público americano após o massacre de civis em Gaza em 2023.

Quando a propaganda política adota IA e disparo em massa, a fronteira entre comunicação e manipulação fica ainda menor.

Esse dado não muda o núcleo do caso Cerimedo, mas ajuda a situá-lo num mercado maior. Consultores, estrategistas e operadores digitais passaram a vender influência programável. O eleitor deixa de ser apenas cidadão. Vira alvo estatístico.

Por que este caso importa para as Américas?

Porque ele reúne, num só enredo, quatro tendências do nosso tempo:

  • Profissionalização da desinformação;
  • Internacionalização das campanhas de direita no continente;
  • Mistura entre consultoria política, lobby e negócios digitais;
  • Normalização do assédio informacional como arma de poder.

Esse ambiente afeta eleições, reputações, segurança pública e confiança institucional. Também corrói a conversa social mais básica. Quando milhares de aparelhos simulam apoio ou indignação, o cidadão comum perde a noção do que é espontâneo e do que foi fabricado.

Nós vemos ligação direta entre esse tema e outras feridas regionais, como já discutimos ao tratar de crime organizado e ameaças transnacionais no continente. A lógica é parecida: redes flexíveis, atuação em vários países, mistura de legalidade e clandestinidade, uso de tecnologia e baixa transparência.

Ao mesmo tempo, vale não cair em simplismos. Nem toda comunicação digital intensa é fraude. Nem toda militância online é robô. O problema começa quando há estrutura para falsificar apoio, esconder financiamento, intimidar pessoas e contaminar o espaço público com mentira deliberada.

Desinformação em escala é poder privado sem freio.

O impacto social e moral da desinformação

Há outro aspecto que às vezes fica fora das manchetes. Quando redes artificiais dominam o debate, elas alteram não só resultados eleitorais, mas hábitos morais de convivência. Passa a parecer normal humilhar, ameaçar, mentir e repetir sem prova.

Por isso, o assunto também toca o que discutimos em valores morais compartilhados entre os povos das Américas. Sem um mínimo de verdade pública, a própria ideia de comunidade política se enfraquece.

A fake news persistente não destrói só fatos. Ela desgasta padrões de confiança entre pessoas comuns.

E quando violência de gênero entra nessa história, como no caso de Nadia Beller, tudo fica mais grave. Já não estamos diante apenas de uma disputa de narrativas. Estamos diante da possibilidade de um arranjo de poder que combina coerção privada e influência massiva.

O que observar daqui para frente?

Nos próximos meses, quatro frentes merecem atenção de quem acompanha o tema:

  • O andamento judicial das acusações na Bolívia;
  • A cadeia financeira e societária ligada à Numen;
  • Os contratos eleitorais passados em outros países;
  • As conexões entre operadores latino-americanos e redes políticas nos EUA.

Também será útil observar como governos e plataformas responderão à descoberta de instalações físicas com dezenas de milhares de celulares. Isso pode abrir nova fase regulatória sobre propaganda política, identidade digital e disparos em massa.

Em paralelo, convém manter os olhos no debate sobre transição tecnológica e poder no continente, inclusive em áreas aparentemente distantes, como mostramos ao falar sobre o futuro da energia renovável na América Latina. Parece outro tema, mas não é tanto assim. Infraestrutura, soberania, dados e influência internacional estão cada vez mais ligados.

Mapa das Américas com conexões digitais e sinais de desinformação Leituras e cursos para entender melhor o tema

Para quem deseja formar repertório com mais base, nós sugerimos alguns materiais relacionados ao tema deste artigo:

Se a preferência for por formação em vídeo, uma alternativa é buscar na Hotmart cursos voltados a checagem de fatos, inteligência digital e leitura crítica de mídia, como formação em fact-checking e verificação digital e curso de geopolítica contemporânea aplicada.

Conclusão

O caso Fernando Cerimedo reúne política continental, redes artificiais, suspeitas criminais e circulação internacional de influência. De um lado, vemos a ascensão de operadores digitais ligados a campanhas conservadoras e populistas. De outro, vemos o preço social desse modelo quando a mentira programada se mistura com intimidação, opacidade e violência.

O escândalo não está só no nome de um consultor, mas na estrutura que permitiu transformar tecnologia em arma política transnacional.

Nós seguiremos acompanhando os desdobramentos com a atenção crítica que orienta o Bom dia América. Se este tipo de leitura ajuda você a entender melhor o presente do continente, assine nossa newsletter e apoie o blog para que possamos continuar produzindo análises independentes, densas e úteis sobre os fatos que moldam as Américas.

Referências

BOLÍVIA. Autoridades policiais e judiciais. Informações públicas sobre prisão preventiva, apreensão de celulares e acusações relacionadas ao caso Fernando Cerimedo e Nadia Beller, 2025.

ESTADO DA FLÓRIDA. Divisão de corporações. Registro da Numen Advisors LLC, incorporação em 24 maio 2023, North Miami, n. L23000254200. Disponível em: <https://search.sunbiz.org/Inquiry/CorporationSearch/SearchResultDetail?aggregateId=flal-l23000254200-652cfd0f-7a13-4e5f-a195-2fccbe999cdd&directionType=CurrentList&inquirytype=EntityName&listNameOrder=NUMEI+L050000117040&searchNameOrder=NUMENADVISORS+L230002542000&searchTerm=NUMEI%2C+L.L.C.>. Acesso em: 1 set. 2026.

FARA. Foreign Agents Registration Act. Registros públicos relativos a contatos e declarações suplementares ligados a representação política e comunicação internacional nos Estados Unidos, 2023-2025.

CUBADEBATE. Investigação jornalística sobre contratos, documentos oficiais e atuação da Numen em campanhas eleitorais latino-americanas, incluindo vínculos com Damián Merlo e contatos políticos nos EUA, 2025.

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