A Copa do Mundo de 2026 será a maior da história: 48 seleções, 16 cidades-sede e jogos distribuídos entre Canadá, Estados Unidos e México. Essa escala faz dos direitos humanos na FIFA uma questão que ultrapassa o campo. Cada partida dependerá de trabalhadores, sistemas de transporte, forças de segurança, regras de fronteira, plataformas digitais e decisões políticas capazes de ampliar direitos ou produzir novas exclusões.
Para o público brasileiro, o tema não é abstrato. A Copa reúne governos, empresas, federações e milhões de torcedores em um mesmo circuito econômico e simbólico. Quando a FIFA escolhe sedes, estabelece exigências comerciais e negocia garantias com autoridades locais, influencia diretamente a vida de quem constrói estádios, trabalha em hotéis, circula nas cidades ou tenta simplesmente entrar em um país para acompanhar sua seleção.
O que significam direitos humanos na FIFA
Desde 2017, a FIFA afirma reconhecer sua responsabilidade de respeitar os direitos humanos, em linha com os Princípios Orientadores das Nações Unidas sobre Empresas e Direitos Humanos. Na prática, isso significa que a entidade deve identificar riscos, prevenir danos, dialogar com pessoas e grupos afetados e oferecer caminhos de reparação quando violações ocorrem em atividades ligadas aos seus torneios.
A formulação parece direta, mas sua aplicação é complexa. A FIFA não substitui governos nacionais nem administra sozinha as cidades-sede. Segurança pública, imigração, legislação trabalhista e políticas urbanas são atribuições estatais. Ainda assim, a organização possui poder de negociação considerável: define padrões, celebra contratos, escolhe parceiros e pode exigir planos de mitigação antes de confirmar uma sede.
Por isso, o debate não deve se limitar à pergunta sobre se a FIFA “é culpada” por cada problema local. A questão mais útil é outra: o que ela fez, ou deixou de fazer, diante de riscos previsíveis criados ou intensificados por um megaevento? Essa distinção é central para cobrar responsabilidades sem simplificar uma rede que envolve autoridades, patrocinadores, clubes, empresas de infraestrutura e fornecedores.
Da promessa à fiscalização
Uma política institucional vale pouco se não vier acompanhada de metas verificáveis. No contexto da Copa, isso envolve avaliações independentes de impacto, divulgação de compromissos assumidos pelas cidades, canais seguros de denúncia e relatórios que mostrem não apenas boas práticas, mas também falhas e medidas corretivas.
Há uma diferença relevante entre ouvir organizações da sociedade civil e incorporá-las ao processo decisório. Consultas podem gerar visibilidade, mas só produzem mudança quando afetam contratos, protocolos de segurança, condições de trabalho e critérios de acesso. A transparência, nesse caso, não é um detalhe burocrático: é a condição para que jornalistas, pesquisadores e comunidades acompanhem o que foi prometido.
A Copa de 2026 amplia os desafios de direitos humanos
O torneio será realizado em três países com realidades jurídicas, políticas e sociais distintas. Essa configuração pode favorecer cooperação regional e troca de experiências, mas também dificulta a criação de garantias uniformes. Um torcedor mexicano, por exemplo, poderá enfrentar regras migratórias e custos muito diferentes daqueles aplicados a um visitante que viaje entre cidades dos Estados Unidos e do Canadá.
A descentralização também muda o perfil do impacto urbano. Em vez de uma única capital ou de poucas cidades concentrando obras e atenção internacional, haverá uma extensa rede de aeroportos, hotéis, centros de treinamento, serviços de alimentação, transporte e áreas de entretenimento. O legado não estará apenas nos estádios: estará nas relações de trabalho temporário, no policiamento de bairros, na circulação de dados e no acesso desigual aos espaços da festa.
Trabalho: não apenas quem constrói o estádio
A discussão sobre trabalho em Copas costuma focar grandes obras, e com razão. No entanto, muitos dos riscos de 2026 estarão em empregos menos visíveis: limpeza, hotelaria, entrega, segurança privada, transporte por aplicativo, montagem de eventos e comércio informal. São setores marcados, em diferentes graus, por terceirização, jornadas instáveis e baixa capacidade de organização coletiva.
Nos Estados Unidos e no Canadá, a presença de trabalhadores migrantes será um ponto sensível. No México, onde parte relevante da economia urbana depende da informalidade, medidas de ordenamento podem afetar vendedores ambulantes e pequenos negócios que não cabem nos padrões comerciais do evento. A proteção de marcas e patrocinadores não pode se transformar automaticamente em expulsão econômica de quem já trabalha nas áreas próximas aos jogos.
O desafio é estabelecer cláusulas trabalhistas que alcancem toda a cadeia de fornecimento, não só as empresas mais visíveis. Salário justo, descanso, equipamentos de proteção, liberdade sindical e mecanismos contra retenção de documentos ou cobranças abusivas de recrutamento precisam entrar na fiscalização. Sem isso, a promessa de geração de empregos pode mascarar postos precários criados para durar apenas algumas semanas.
Segurança, vigilância e direito de protestar
Megaeventos frequentemente ampliam aparatos de segurança. Câmeras, reconhecimento facial, controle de multidões, zonas de exclusão e operações policiais podem ser apresentados como ferramentas de proteção. Em determinadas situações, são necessários protocolos rigorosos para impedir violência e garantir a integridade de torcedores. O ponto decisivo é a proporcionalidade: segurança não deve significar vigilância sem limites nem restrição automática de direitos civis.
A Copa de 2026 ocorrerá em um período de alta polarização política nas Américas. Protestos sobre imigração, racismo, direitos indígenas, desigualdade urbana, guerras e mudanças climáticas podem surgir nas cidades-sede. A resposta democrática não é silenciar manifestações para preservar uma imagem televisiva de normalidade. É garantir regras claras, proteção contra uso excessivo da força e canais de diálogo que não criminalizem a dissidência.
Também merece atenção o uso de tecnologias privadas na gestão do evento. Quem terá acesso aos dados coletados em aplicativos, ingressos digitais e sistemas de identificação? Por quanto tempo essas informações serão guardadas? Quais mecanismos permitirão contestar erros que impeçam alguém de entrar em uma arena ou que levem a uma abordagem indevida? A inovação pode melhorar a organização, mas não elimina o dever de proteger privacidade e devido processo.
Migração e fronteiras: o teste continental
Uma Copa organizada por três nações deveria simbolizar circulação e encontro entre povos. Porém, as fronteiras da América do Norte estão entre os pontos mais politicamente sensíveis do continente. Vistos, barreiras econômicas, critérios de entrada e políticas de deportação podem impedir que o torneio seja acessível justamente para comunidades latino-americanas que lhe dão parte de sua identidade cultural.
A FIFA e os governos anfitriões terão de explicar como pretendem compatibilizar a mobilidade associada ao campeonato com sistemas migratórios restritivos. Não se trata de exigir que o futebol resolva sozinho debates soberanos e complexos. Trata-se de reconhecer que o evento vende uma experiência global e, portanto, precisa reduzir arbitrariedades previsíveis para torcedores, jornalistas, atletas, familiares e trabalhadores credenciados.
A situação exige cuidado especial com solicitantes de refúgio, pessoas sem documentação regular e comunidades que vivem próximas a áreas de grande circulação. Operações de segurança voltadas ao evento não podem servir de pretexto para ações discriminatórias ou para separar famílias. A visibilidade internacional da Copa aumenta o custo reputacional dessas práticas, mas visibilidade não substitui garantias concretas.
Racismo, diversidade e inclusão além da campanha
O futebol possui enorme capacidade de confrontar o racismo, mas também reproduz ofensas, discriminações e desigualdades presentes nas sociedades. Em 2026, a FIFA deverá lidar com episódios dentro dos estádios, nas redes sociais e nos deslocamentos urbanos. Protocolos contra discriminação precisam ser conhecidos pelo público, aplicados com rapidez e acompanhados de dados que permitam avaliar resultados.
A proteção deve alcançar torcedores negros, indígenas, migrantes, pessoas com deficiência, mulheres e população LGBTQIA+. Isso inclui acessibilidade física e comunicacional, banheiros e espaços seguros, treinamento de equipes, atendimento em diferentes idiomas e resposta efetiva a assédio. Não basta estampar slogans em telões se uma vítima não consegue registrar denúncia, receber apoio ou ver uma medida tomada.
Há ainda uma dimensão regional. A Copa pode dar visibilidade às culturas indígenas e às diásporas que formam as cidades-sede, desde que isso não vire decoração turística. Participação real envolve remuneração justa, consulta sobre uso de símbolos culturais e presença em decisões relacionadas a território, mobilidade e programação pública.
O que a experiência do Catar ensinou
A Copa de 2022 colocou os direitos trabalhistas, a liberdade de expressão e a situação de minorias no centro do debate global sobre a FIFA. A pressão de sindicatos, organizações humanitárias, atletas e imprensa produziu mudanças pontuais e aumentou o custo político da omissão. Ao mesmo tempo, revelou um limite recorrente: muitas medidas aparecem tarde, quando obras, contratos e estruturas de poder já estão consolidados.
A lição para 2026 não é tratar países anfitriões como equivalentes nem repetir comparações automáticas. Estados Unidos, México e Canadá têm instituições e desafios próprios. A lição é preventiva: avaliações de risco devem ocorrer antes da crise, e não como resposta à repercussão negativa. Quanto maior a antecedência, maior a possibilidade de corrigir rotas sem transferir o prejuízo para trabalhadores e comunidades.
Quem pode cobrar resultados
A responsabilidade de acompanhar a Copa não pertence somente a entidades internacionais. Governos locais devem publicar compromissos e dados; empresas precisam responder por suas cadeias de contratação; veículos de imprensa devem investigar além da agenda esportiva; e torcedores podem cobrar informações claras antes de consumir a experiência do evento.
Para leitores brasileiros, acompanhar o torneio com senso crítico não diminui a paixão pelo futebol. Ao contrário: ajuda a defender a ideia de que a festa só é completa quando a dignidade de quem a torna possível também entra em campo. A Copa de 2026 será um laboratório das relações entre as Américas. Vale observar menos o discurso de ocasião e mais as escolhas concretas feitas quando trabalhadores, migrantes e comunidades pedirem para ser ouvidos.
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