O Brasil virou as costas para o futuro? O diagnóstico da The Economist e o que ele deixa de fora
O editorial britânico acerta ao apontar a rigidez fiscal e o baixo crescimento, mas reduz um problema estrutural brasileiro à disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro
Por Bom Dia América
A The Economist publicou em 24 de setembro um editorial com um título deliberadamente provocativo: “Brazil turns its back on the future” — “O Brasil dá as costas ao futuro”. O argumento central é direto: o país possui recursos naturais, energia, terras agrícolas, minerais estratégicos e uma população capaz de produzir muito mais, mas continua sem transformar esse potencial em crescimento econômico sustentado.
A crítica merece atenção. O Brasil enfrenta, de fato, uma combinação difícil de dívida pública elevada, despesas obrigatórias, juros altos, baixa produtividade e dificuldades para realizar reformas estruturais.
Mas o editorial britânico também apresenta uma interpretação política bastante fechada. Ao colocar Lula e Flávio Bolsonaro no centro da explicação para o futuro brasileiro, a revista deixa em segundo plano uma questão talvez ainda mais importante: o problema do Brasil não está apenas em quem ocupa o Palácio do Planalto, mas na capacidade do sistema político de alterar as estruturas que limitam o crescimento.
O Brasil realmente tem um problema fiscal
É difícil contestar a preocupação fiscal apresentada pela The Economist. O problema não é simplesmente o tamanho nominal da dívida, mas a combinação entre dívida, resultado fiscal, juros e crescimento.
Dados recentes do Banco Central mostram que a dívida bruta do governo geral permanece em patamar elevado em relação ao PIB, enquanto o custo dos juros exerce pressão significativa sobre as contas públicas.
A Reuters também destacou, em análise publicada em setembro de 2026, a elevada rigidez do orçamento brasileiro e o peso das despesas obrigatórias.
Essa rigidez é um dos pontos mais importantes da discussão.
Quando grande parte das despesas está vinculada a regras legais, constitucionais, previdenciárias, sociais ou de indexação, o governo não consegue simplesmente decidir, de um ano para outro, cortar gastos na proporção necessária para estabilizar a dívida.
É por isso que o problema fiscal brasileiro é também um problema institucional.
Mas 92% de despesas obrigatórias não significa que 92% do Estado sejam intocáveis
Há uma ressalva importante à formulação utilizada pela The Economist.
Dizer que aproximadamente 92% da despesa primária está classificada como obrigatória não significa que 92% de todo o orçamento brasileiro sejam absolutamente imutáveis.
A classificação orçamentária mostra o elevado grau de rigidez do gasto primário, mas existem diferentes graus de dificuldade jurídica e política para modificar cada componente.
A questão relevante, portanto, não é simplesmente “o governo não pode cortar gastos”. A questão é outra:
Quanto do gasto público pode ser alterado sem reformas legislativas, constitucionais ou mudanças nas regras de vinculação e indexação?
É essa pergunta que transforma o debate fiscal em debate sobre o funcionamento do Estado brasileiro.
O FMI chega a uma conclusão semelhante — mas não reduz o problema à eleição
A preocupação com a trajetória fiscal não é exclusiva da The Economist.
Em sua avaliação de 2026, o Fundo Monetário Internacional afirmou que o Brasil precisa de um esforço fiscal mais ambicioso para colocar a dívida pública em trajetória descendente e abrir espaço para investimentos prioritários.
O organismo também recomendou o fortalecimento da estrutura fiscal, incluindo uma âncora de dívida de médio prazo e limites de crescimento das despesas.
Ao mesmo tempo, o FMI observou que a economia brasileira permanece resiliente diante de múltiplos choques e que reformas estruturais, incluindo a implementação do novo sistema tributário, podem contribuir para elevar a produtividade no médio prazo.
Essa segunda parte é importante porque impede que o diagnóstico seja reduzido à ideia de que o Brasil estaria simplesmente “parado”.
Há reformas em andamento, setores competitivos e instituições econômicas funcionando. O problema é que esses avanços ainda não produziram uma transformação suficientemente ampla da produtividade brasileira.
Lula e Flávio Bolsonaro são realmente o problema?
A The Economist sustenta que nenhum dos dois principais candidatos oferece uma resposta convincente para os problemas estruturais do país.
Há um elemento verificável nessa crítica: análises recentes da Reuters mostram que os dois campos apresentam propostas de ajuste fiscal, mas evitam detalhar medidas politicamente custosas capazes de produzir uma consolidação de grande escala.
Mas transformar essa constatação em uma explicação para o futuro do Brasil exige cautela.
O presidente brasileiro não governa sozinho.
Em 2026, além da eleição presidencial, estarão em disputa todos os 513 assentos da Câmara dos Deputados e 54 das 81 cadeiras do Senado.
A composição do Congresso terá influência direta sobre a capacidade de qualquer governo de aprovar mudanças fiscais, tributárias, previdenciárias e administrativas.
Essa dimensão aparece pouco no editorial da The Economist.
O verdadeiro problema talvez seja menos “Lula contra Flávio” e mais Executivo contra uma estrutura política e orçamentária que distribui poder entre Congresso, Estados, municípios, grupos organizados e diferentes setores da sociedade.
O Brasil não escolhe apenas um presidente
Essa distinção é fundamental para compreender a eleição de 2026.
O resultado presidencial pode alterar a direção econômica e diplomática do país, mas a implementação de reformas depende da construção de maiorias legislativas.
A rigidez orçamentária e a fragmentação do Congresso tornam especialmente difícil uma consolidação fiscal de grande escala.
Portanto, a pergunta “quem será o próximo presidente?” é insuficiente para responder à questão mais importante:
Qual coalizão política terá capacidade de modificar as regras que produzem a atual estrutura de gastos?
O problema brasileiro também é produtividade
Outro ponto que merece ser acrescentado ao diagnóstico da The Economist é a produtividade.
Reduzir o problema brasileiro ao déficit fiscal seria insuficiente.
Mesmo que o país conseguisse estabilizar sua dívida, continuaria diante de desafios relacionados a infraestrutura, educação, inovação, segurança jurídica, burocracia, qualificação profissional, integração comercial e ambiente de negócios.
O crescimento sustentável depende da capacidade de produzir mais valor utilizando melhor capital, trabalho, tecnologia e infraestrutura.
É aqui que surge uma diferença importante entre equilibrar as contas públicas e transformar a economia.
O primeiro pode ser condição necessária para o segundo. Mas não é suficiente.
Um país pode reduzir seu déficit e continuar crescendo pouco se não elevar sua produtividade.
O paradoxo dos recursos brasileiros
É justamente nesse ponto que o editorial da The Economist apresenta uma de suas observações mais interessantes.
O Brasil possui uma combinação incomum de ativos estratégicos: petróleo, agricultura, água, energia renovável, biodiversidade, minerais críticos, território continental e um grande mercado consumidor.
O país também ocupa posição singular na transição energética e na segurança alimentar global.
O paradoxo é que essa abundância não se converte automaticamente em produtividade, renda e poder econômico.
Esse talvez seja um problema mais profundo do que a simples discussão eleitoral.
O Brasil não precisa apenas administrar melhor seus recursos. Precisa transformar recursos em capacidade produtiva, tecnologia, infraestrutura e poder de negociação internacional.
É aqui que a análise econômica encontra a geopolítica
O Brasil de 2026 não pode ser analisado apenas como uma economia latino-americana endividada.
O mundo está entrando em uma disputa crescente por energia, alimentos, minerais críticos, cadeias industriais, tecnologia e infraestrutura.
Nesse cenário, os ativos brasileiros possuem importância estratégica.
A questão, portanto, não é simplesmente saber se o Brasil possui potencial.
O potencial está evidente.
A questão é saber se o Estado e o setor privado conseguirão transformar esse potencial em produtividade antes que outras economias ocupem os espaços disponíveis nas novas cadeias globais.
Corrupção: um problema real, mas que exige precisão
A The Economist também associa corrupção à perda de confiança nas instituições.
Essa relação merece ser considerada, mas exige cuidado.
O escândalo envolvendo o Banco Master produziu investigações e revelou uma rede de relações envolvendo diferentes figuras do mundo político e institucional.
Isso, porém, é diferente de concluir antecipadamente que todas as relações investigadas constituem corrupção.
Para uma análise responsável, é necessário separar:
- relações financeiras documentadas;
- investigações em andamento;
- alegações feitas por autoridades ou terceiros;
- provas produzidas nos processos;
- e conclusões judiciais definitivas.
A distinção é especialmente importante quando o tema envolve instituições como o Supremo Tribunal Federal, o Congresso e candidatos à Presidência.
O Brasil está realmente “dando as costas para o futuro”?
A resposta depende de qual futuro estamos considerando.
Se o futuro for entendido como uma economia com dívida controlada, juros menores, maior produtividade e crescimento mais rápido, o alerta da The Economist merece ser levado a sério.
Se, porém, a pergunta for se o Brasil perdeu sua capacidade de construir esse futuro, a conclusão é muito menos evidente.
O país continua possuindo instituições relevantes, uma economia diversificada, reservas internacionais, capacidade agrícola, matriz energética relativamente favorável e uma posição estratégica cada vez mais importante.
O problema brasileiro parece ser menos a ausência de oportunidades e mais a dificuldade de coordenar políticas públicas capazes de aproveitá-las.
O fator Congresso pode ser mais importante do que parece
A eleição de 2026 também ocorre em um momento de maior influência do Congresso sobre a formulação e a execução das políticas públicas.
O próximo presidente encontrará importantes desafios institucionais e um Legislativo com forte capacidade de influenciar orçamento e agenda legislativa.
Isso reforça uma conclusão importante: o próximo ciclo político brasileiro não será definido apenas pelo vencedor da eleição presidencial.
Será definido também pela composição do Legislativo, pela capacidade de negociação entre Executivo e Congresso e pela disposição das diferentes forças políticas para enfrentar custos concentrados em busca de resultados de longo prazo.
O verdadeiro dilema brasileiro
A The Economist apresenta o dilema como uma escolha entre dois candidatos que, segundo sua interpretação editorial, não ofereceriam a mudança estrutural necessária.
O problema brasileiro pode ser maior.
O país precisa conciliar simultaneamente:
- responsabilidade fiscal;
- proteção social;
- crescimento econômico;
- investimento público e privado;
- controle da inflação;
- redução sustentável dos juros;
- aumento da produtividade;
- segurança jurídica;
- infraestrutura;
- inovação tecnológica;
- competitividade internacional;
- e preservação de sua capacidade de influência diplomática.
Não existe uma única reforma capaz de resolver esse conjunto de problemas.
E nenhuma eleição, isoladamente, será suficiente.
O futuro brasileiro não está morto
O ponto mais interessante do editorial da The Economist talvez esteja justamente em sua contradição.
Depois de apresentar um diagnóstico bastante pessimista, a própria revista reconhece que importantes instituições brasileiras continuam funcionando.
Essa ressalva muda o significado do título.
Talvez o Brasil não esteja dando as costas ao futuro.
Talvez esteja simplesmente demorando demais para decidir que tipo de futuro pretende construir.
O país possui recursos para desempenhar um papel muito maior na economia mundial. Possui uma posição estratégica nas Américas. Possui vantagens em energia, alimentos, biodiversidade e minerais críticos. E possui uma população suficientemente grande para sustentar um mercado interno de escala continental.
Mas transformar vantagens naturais em poder econômico exige algo que recursos naturais não podem fornecer sozinhos: instituições capazes de produzir estabilidade, investimento, produtividade e planejamento de longo prazo.
Conclusão: a pergunta que a Economist não responde
A pergunta mais importante não é se Lula ou Flávio Bolsonaro representam o futuro do Brasil.
Essa é uma questão eleitoral que será decidida pelos eleitores.
A questão estrutural é outra:
O sistema político brasileiro será capaz de produzir as reformas necessárias para transformar a extraordinária dotação de recursos do país em produtividade, crescimento e poder geopolítico?
Essa pergunta não será respondida apenas no Palácio do Planalto.
Ela dependerá do Congresso, das instituições econômicas, dos governos estaduais, do setor privado e da própria sociedade brasileira.
A The Economist está correta ao chamar atenção para o risco fiscal. Também está correta ao lembrar que potencial não é resultado.
Mas o futuro brasileiro não pode ser reduzido a uma disputa entre duas famílias políticas.
O verdadeiro desafio do Brasil é transformar potencial em capacidade.
Capacidade fiscal.
Capacidade produtiva.
Capacidade tecnológica.
Capacidade institucional.
E, sobretudo, capacidade de transformar sua posição estratégica nas Américas em influência econômica e geopolítica proporcional ao seu tamanho.
É nesse ponto que o debate sobre a eleição de 2026 deixa de ser apenas uma disputa presidencial e passa a ser uma discussão sobre o lugar que o Brasil ocupará na próxima configuração do continente americano.
Fontes e referências
- The Economist. “Brazil turns its back on the future”. Leaders, 24 September 2026.
- Reuters. Análises sobre a situação fiscal brasileira e as propostas dos principais candidatos presidenciais, setembro de 2026.
- Fundo Monetário Internacional. 2026 Article IV Consultation with Brazil.
- Banco Central do Brasil. Estatísticas fiscais e dados de dívida pública.
- Council on Foreign Relations. Análise sobre a eleição brasileira de 2026 e seus impactos institucionais.