O que aproxima os BRICS do pensamento de Bretton Woods?

Mapa-múndi destacando países do BRICS conectados por rotas comerciais, sobrepostos a documentos históricos da Conferência de Bretton Woods de 1944, com símbolos monetários modernos. A expressão BRICS Bretton Woods pode soar contraditória, já que um representa a atual contestação da ordem financeira global e o outro simboliza o pacto econômico que moldou o mundo após a Segunda Guerra Mundial. No entanto, uma análise atenta revela pontos de convergência importantes — sobretudo na visão de criar estruturas multilaterais para estabilizar fluxos comerciais, monetários e de investimentos.
Entre 1º e 22 de julho de 1944, na cidade de Bretton Woods, em New Hampshire, EUA, 44 países se reuniram para estabelecer regras que prevenissem crises financeiras como a de 1929 e evitassem o caos cambial que havia favorecido o avanço de políticas nacionalistas e guerras. O acordo de Bretton Woods estabeleceu três fundamentos principais: taxas de câmbio fixas, com moedas atreladas ao dólar e este ao ouro; instituições multilaterais para apoio financeiro e reconstrução — o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (hoje Banco Mundial); e a promoção do comércio internacional como vetor de estabilidade e crescimento.
Segundo Helleiner (2014), o sistema representava um “capitalismo gerido”, no qual os Estados tinham papel ativo no controle da economia global. Esta abordagem visava garantir que as economias pudessem se reconstruir e crescer em um ambiente de cooperação e estabilidade.
O termo BRIC foi criado pelo economista Jim O’Neill, do Goldman Sachs, em 2001, para designar Brasil, Rússia, Índia e China — economias emergentes com grande potencial de crescimento. A África do Sul foi incorporada em 2010, formando o BRICS. Em resposta ao cenário internacional, o grupo criou suas próprias instituições financeiras, como o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e o Arranjo Contingente de Reservas (ACR).
O NBD financia projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável, muitas vezes em moeda local, reduzindo a exposição cambial. O ACR é um fundo de liquidez para ajudar países membros a enfrentar pressões de balanço de pagamentos, com capital inicial de US$ 100 bilhões. Estas iniciativas refletem o desejo do BRICS de promover uma governança econômica mais inclusiva e diversificada.
Assim como Bretton Woods estruturou o FMI e o Banco Mundial, o BRICS constrói instituições próprias para coordenar políticas financeiras e de desenvolvimento. Ambos sistemas buscam a estabilidade monetária, sendo que Bretton Woods utilizou o câmbio fixo e o BRICS utiliza linhas de swap e reservas. A integração econômica é outra prioridade comum, com Bretton Woods promovendo o GATT e o BRICS incentivando acordos comerciais bilaterais.
Apesar das convergências, há diferenças estruturais importantes. Bretton Woods tinha o dólar lastreado em ouro, enquanto o BRICS não propõe câmbio fixo, mas sim acordos em moedas locais e pesquisa para uma moeda digital conjunta. A liderança também difere: Bretton Woods foi liderado pelos EUA e Reino Unido, enquanto o BRICS opera com liderança compartilhada, com crescente influência da China. Geopoliticamente, Bretton Woods focava no Ocidente, enquanto o BRICS mira a multipolaridade global.
Para a América Latina, a conexão BRICS Bretton Woods oferece oportunidades e riscos. O acesso a financiamento alternativo via NBD vem com menos condicionalidades comparado ao FMI, o que pode ser atraente para países com economias emergentes. A diversificação monetária proposta pelo BRICS pode reduzir a vulnerabilidade ao dólar, especialmente para países com fortes laços comerciais com a China e a Índia.
No entanto, isso também pode gerar tensões diplomáticas, pois os países latino-americanos tradicionalmente alinhados aos EUA podem enfrentar dilemas ao buscar novas parcerias com o BRICS. A dinâmica geopolítica da região pode mudar significativamente, dependendo de como essas novas alianças econômicas se desenvolverão.
Livros sobre as Américas | Mapas e Atlas Geopolíticos | História da América Latina
HELLEINER, Eric. Forgotten Foundations of Bretton Woods: International Development and the Making of the Postwar Order. Ithaca: Cornell University Press, 2014.
STEIL, Benn. The Battle of Bretton Woods: John Maynard Keynes, Harry Dexter White, and the Making of a New World Order. Princeton: Princeton University Press, 2013.
O’NEILL, Jim. Building Better Global Economic BRICs. Goldman Sachs Global Economics Paper No. 66, 2001. Disponível em: https://www.goldmansachs.com/insights/archive/brics-book.html. Acesso em: 8 ago. 2025.
NDB – NEW DEVELOPMENT BANK. Annual Report 2024. Shanghai: NDB, 2024. Disponível em: https://www.ndb.int. Acesso em: 8 ago. 2025.
INTERNATIONAL MONETARY FUND – IMF. Articles of Agreement of the International Monetary Fund. Washington, D.C.: IMF, 1944. Disponível em: https://www.imf.org. Acesso em: 8 ago. 2025.
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